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Jequié: a cidade onde o tempo parou

Faz uma semana que estive aqui e fiz o vídeo "O Brasil que eu quero não cabe num vídeo de quinze segundos", em que relatei e mostrei a rua onde nasci e morei parte da infância. A rua da Banca continua sem calçamento, com esgoto a céu aberto, lixo espalhado, sem meio de transporte etc.



Hoje, 09 de fevereiro de 2018, fugindo do carnaval dos turistas de Salvador, estou no interior outra vez. Precisei ir ao centro resolver umas questões e me deparei com uma cidade repleta de carros, motos, carroças, bicicletas, sem lugar pra estacionamento e os flanelinhas disputando a sobrevivência.



Achei uma vaga fora do circuito, onde deixei o carro e fui andando pra meu destino. Na volta ao veículo, numa esquina, vi uma senhora jovem, com uma criança no colo e outra ao lado.



Não costumo encarar as pessoas na rua, mas a cena não me escapou aos olhos.

Saí da Cidade Sol há mais de vinte anos, sempre estou de volta, em visitas ou passando, mas o quadro que observei me levou pra infância de fome e miséria experimentada nesse torrão esturricado.



Lembrei de minha mãe, eu e minha irmã mais velha, sentados as portas de hotéis, restaurantes ou residências, à espera de uma esmola, um prato de comida, um brinquedo usado...



Não foi necessário diálogo. A cena falava por si; talvez aquela mulher jamais imagine o porquê de minha empatia, mas eu fiz uma leitura social comovente. Discursar ali não encheria a barriga de nenhuma das três.



Observei na mão da menina maior uma garrafa de água mineral. Ao balançá-la, caíram umas quatro moedas de cinco e dez centavos antes equilibradas na boca da garrafa.



A mãe balbuciou pra mim se eu podia dar alguma ajuda. Não falei nada, dei o que pude e fui para o carro. Ouvi ela fazer vários agradecimentos...




Minha cruel cidade, onde tem pessoas com casas que valem milhões, tem muita gente passando fome, que me fez voltar no tempo e sentir que nada mudou...
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