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Primos

Primos. Nem irmãos nem amigos. Todo mundo tem primos. Todos que eu conheço, pelo menos. Difícil alguém completamente só. É possível alguém que desconheça os primos que tem, mas alguém sem primos, esse não existe. Portanto, todos sabem o que é conversar, se divertir, se relacionar com uma prima. E alguns sabem o que é conversar, se divertir e se relacionar com uma prima linda. Um perfeito exemplar de mulher, que é parente, porém não tem um parentesco que lhe veta o sonho.

Meu passado esconde, ou melhor, revela uma deliciosa crônica para ser lembrada, porém terrivelmente amarga, se lembrada com o auxílio do outro protagonista: a prima. É certo que foi uma história de criança, mas, ainda assim, foi um grande e completo mico, diante de toda a família, entre tios e tias formidavelmente bem informados. O seu nome é Aline. Hoje, ela deve estar tão distante disso que acharia uma grande inutilidade escrever a respeito. Ou uma grande imprudência, não sei. Não a entendo hoje, bem como não a entendia na época infantil em que me aventurei em tentar conquistá-la. Não a compreendia, mas de uma coisa eu estava absolutamente certo: era linda. Pouco importa a uma criança a afinidade, ou sua possibilidade; ou a estabilidade psicológica; ou a opinião alheia; ou qualquer outro valor abstrato cujo nome ela ignora e, por isso, não cogita. Cogita apenas o que está ao alcance de sua visão, como ela, em si, fisicamente. Linda, e com os olhos dizendo, com todas as letras: "apaixone-se por mim! Não te arrependerás..." É claro que eles não diziam isso. Nem se quer miravam-se em mim. Era tudo produto de uma fértil imaginação infantil, atiçada pela mera presença feminina. Uma miragem. Uma visão magnífica em que eu era o rei, dono daquele rosto tranqüilo e objeto de suas atenções.

Materializei o sonho. Pintei o quadro da visão. Estávamos numa garagem. Na garagem da casa dela. Não estávamos a sós. Um primo aparece na cena como coadjuvante (este que me perdoe a posição a que o rebaixei). Atraí para cima de mim os olhos que, até então, só vira de frente em sonho, declarando-lhe as baboseiras que eu nomeara amor. Falei pausadamente. Não por vergonha, que eu não tinha, mas por galanteio. O pior imaginável. E não é pessimismo ou modéstia, mas memória. A minha não é boa, mas diante de tamanho trauma, a mente mais primitiva se lembraria dos mínimos detalhes. Foi algo como – Você é a garota mais linda que eu conheço – dito de olhos semifechados e balançando a cabeça de um lado para o outro no ritmo das sílabas.

Diante dessa tétrica declaração, a reação do primo foi mais notável do que a de Aline.

- Você está falando com minha irmã! - disse ele com os olhos arregalados pela surpresa.

Ela, porém, com o rosto coberto de uma tranqüilidade inabalável e voltado para o chão, meditava em algum comentário grave e superior que servisse de réplica. Mas seu raciocínio foi interrompido pela tradicional proposta que, geralmente vem precedida por um cortejo como aquele:

- Quer namorar comigo?

Foi cômico, e não foi a pouca idade que me impediu de ver isso. Mesmo porque, dias depois eu já estava arrependido e envergonhado. Não dá para crescer em alguns dias. Eu já tinha uma rasa noção do que é passar vergonha. Sabia que não poderia ter feito aquilo sem provocar risos em todas as faixas etárias da família. Fiz por um inexplicável impulso e absorto no torpor dos meus pensamentos, que eram a minha usina de problemas, naqueles dias, movida a Aline. Não estou pondo nela a culpa dessas desventuras. A culpa foi minha. Mas a causa foi ela. Ela que, enfim, disse sim. Até hoje eu não compreendo. O que será que a levou a concordar com aquela proposta inoportuna, vinda de tão excêntrica figura? Será que ela, como minha mãe, me achava tão bonito assim? Ou será que ela queria ver o fim de uma história bizarra, da qual acabara de ler o prólogo? Acho essa última mais provável. A curiosidade tem um certo poder. Dizem que ela matou um gato, certo?

Assim começou o namoro. Namoro? O que é, categoricamente um namoro? Esta era a pergunta que pairava inquietante sobre minha cabeça. O que será que os namorados fazem? Eu sabia apenas que eles se beijavam, mas era justamente isso que eu não sabia como vindicar. Poderia roubar-lhe um beijo, o que, na verdade, não seria um roubo, porque éramos namorados. Mas para esse assalto me faltava a coragem que me sobrou na garagem.

Poderia então esperar que ela me presenteasse com um beijo, o que não me parecia impossível. Afinal, éramos namorados. Ótimo. Isso eu podia fazer. Esperei por vários dias. Eu acho. A contagem do tempo para mim era um pouco confusa. Sei que foi tempo o bastante para me fazer desistir de esperar e procurar outra maneira de consumar a curiosa aliança.

Minha usina movida a Aline deu-me a mais óbvia solução, que poderia ter sido encontrada com qualquer outro combustível: pedir-lhe o beijo. Afinal, éramos namorados.

Foi diante da reação da moça ao pedido que eu descobri o quanto estava enrolado. Não sei o que ela pensou, e é provável que eu nunca pergunte, mas sei que, para ela, não era tão simples quanto parecia ser para mim. Ela não poderia me beijar em público! Vergonha? Repito que eu não tinha, mas ela poderia ter. Seria este seu empecilho? Naquela hora, nublou-se o céu da minha fantasia, quando supus que ela poderia simplesmente não querer. Estava diante daquela iminente provável recusa quando vi, numa estranha idéia, que naquela ocasião eu chamei de brilhante, o azul do meu céu novamente. Não sei de quem surgiu a idéia, mas pelo seu caráter insano, suponho que de mim. Vamos a ela: usar um lugar reservado. Até aí, tudo bem. Mas qual o lugar escolhido para esconder-nos das outras crianças? Este foi o ponto original; o guarda-roupa.

Suponho que reinava em todos um alegre ar de brincadeira. Mas eu levava tudo muito a sério, com um sorriso brilhante e cheio de satisfação; ela concordara. Isso revelou que ela, de fato, queria o beijo. Não havia mais dúvida. Vigorava a hipótese da vergonha. Hipótese bem fundada. Estávamos cercados de primos e irmãos risonhos, bagunceiros e barulhentos. Além disso, éramos risonhos, bagunceiros e barulhentos também. Em meio à bagunça, o ósculo cerimonioso que eu idealizara não seria possível. Acredito que Aline pensava da mesma forma.

Passamos, então, do tumulto do quarto, do meio daquela buliçosa torcida para a câmara do beijo secreto, que, ao fechar da porta, mergulhou num profundo e escuro silêncio.

Eu não podia vê-la, mas sabia que estava ali, na minha frente. Mais alta e mais velha, porém mais perto e possível do que nunca. Eu desenhava com a memória a sua imagem no escuro à minha frente, enquanto ouvia e sentia no rosto sua respiração. Era só beija-la. Mas eu disse uma besteira.

- Não estou vendo nada...

Claro que não, mas isso não precisava ser compartilhado! O que me levou a fazer tão inútil comentário foram os mil medos simultâneos que me assaltaram a mente. Eu poderia beijar-lhe o queixo, ou um olho, ou sua mão, que ela usara para proteger-se do namorado maluco.

Felizmente, minha determinação foi maior do que meu talento para dizer asneiras. Levantei uma das mãos na direção do seu rosto, encontrando fios de cabelo, depois sua pele, e por fim sua boca. Pelo tato, mapeei sua face e encontrei meu rumo. Dei-lhe o beijo. Seco e curto. O melhor da minha vida, até então. Claro; foi o primeiro.

Depois desse episódio, ao contrário do que se pode supor, o beijo não se tornou trivial. O relacionamento era coxo e pontilhado de capítulos tão cômicos quanto os primeiros.

Posteriormente, ouvi de uma outra prima que Aline lhe reportava os inúmeros fins e recomeços entre nós. Eu não me lembro disso, mas estou certo de que, de fato, não passava de uma brincadeira. Para mim, engraçada. Para Aline, não sei. Como eu disse, nunca a entendi. Sabia sobre ela somente que era linda e prima.

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CUCA Recife em 25.02.2008 às 23h50

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Este conteúdo tem 1 Comentários

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  1. fernanda comentou:
    em 01.07.2011 às 14:19

    legal muit massa

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