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Jornal iTEIA

09.09.2013 - 09h20

Entrevista: escritor de volta à escola?

Fonte: Blog de Literatura iBahia

ampliar Foto: divulgação
Luís Roberto Amabile

“Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ser e escrever desde cedo, podem escrever livros”.



A fala, que reverbera a insatisfação de vários escritores contra a chamada Ditadura da Inspiração, é de Luís Roberto Amabile. Ele sabe do que fala. Mestre em Escrita Criativa, doutorando em Teoria da Literatura, autor de O Amor é um Lugar Estranho (Grua Livros, 2012), ex-jornalista feliz por ter abandonado a antiga profissão, Luís trocou São Paulo por Porto Alegre em um impulso literário. E agora, junto com Moema Vilela e Rodrigo Rosp, organiza a I Festa da Escrita Criativa, entre os dias 02 e 06 de setembro, no prédio 8 da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, um evento feito na medida para explicar que impulso é esse – impulso, no final das contas, que une a todos nós, amantes dos livros. O Blog de Literatura conversou com ele: o papo seria sobre a Festiva, mas terminou sendo sobre academia, felicidade e o atual cenário literário no Brasil.


BdeL – A Festiva foi criada dentro da pós-graduação em Escrita Criativa da PUC-RS, experiência única no país. Comente essa iniciativa e a importância de um evento como o organizado por vocês.


LRA – Acho que nós escritores temos de ser muitos gratos à PUC-RS por criar a área de Escrita Criativa. É uma pequena revolução dentro da academia. Antes a Escrita Criativa era uma linha de pesquisa dentro da Teoria da Literatura, agora na PUC é uma área equivalente à teoria. Agora há bem mais aulas específicas em Escrita Criativa. Agora há doutorado. Agora sai, no diploma, Escrita Criativa.


Outro fator: por exemplo, esse mestrado dá algumas bolsas. Ou seja, o escritor vai ganhar para estudar e escrever. A intenção, pelo que sei, é que o doutorado também tenha bolsas assim que possível. E o mestrado e o doutorado em EC agregam pessoas interessadas na prática literária. Temos um grupo que produz e discute literatura, temos o famoso tripé do Antonio Candido, escritor-obra-leitor (e até editor), dentro da universidade, ou como diria o Pierre Bourdieu, temos um minissistema literário.


A Festiva, que surgiu dentro do Grupo de Estudo Leitura e Criação Literária, coordenado pelo professor Paulo Kralik, é importante na medida em que coloca em evidência tudo isso. A ideia apareceu porque agora há vários escritores publicados na PUC-RS. Além disso, a Carol Bensimon, o Diego Grando, Amílcar Bettega também fizeram mestrado ou doutorado em Escrita Criativa – o Amílcar, aliás, foi o primeiro a defender doutorado, o romance “Barreira” (Companhia das Letras, 2013, Coleção Amores Expressos) foi o seu projeto de conclusão.


BdeL – As mesas tratam de diversos temas que não estamos acostumados a ver serem discutidos dentro de universidades. Quais foram os critérios para as escolhas e o que se espera com elas?


LRA – Escolhemos temas, a nosso ver, caros a pessoas que se interessam pela criação literária. Esperamos deixar falar os escritores dentro da universidade e que esta fala reverbere e dê origem a novas discussões, que divulguem suas obras para o público em geral e que ainda os alunos da graduação possam saber mais sobre a lida com as palavras e ver que é possível seguir esse caminho.


BdeL – Você participará de uma mesa sobre escritores que largaram a sua “vida pregressa” e correram atrás da literatura. Que ímpeto é esse que os livros proporcionam?


LRA – É uma questão de felicidade, eu acho. Posso falar pelo meu caso. Deixei de ser jornalista em São Paulo. Pedi demissão do Estadão no segundo semestre de 2009 porque queria me dedicar a escrever ficção e precisava de tempo para isso. Cursei a oficina (do Assis Brasil) em 2010. Não sou gaúcho, nasci no interior de São Paulo, em Assis, e não sabia da oficina, até que vi uma reportagem na Bravo. Eu já estava cansado da vida em São Paulo, da vida de jornalista e, uma vez aceito na oficina, decidi me mudar pro Sul. Foi uma decisão radical, eu estava pronto pra dar entrada num apartamento em São Paulo e usei o dinheiro para começar uma nova vida em Porto Alegre. Eu estava infeliz em São Paulo, mas não teria vindo para Porto Alegre se não fosse pela oficina. Uma vez aqui, descobri o mestrado em Escrita Criativa na PUC, prestei e ganhei bolsa, depois ganhei bolsa para o doutorado em Teoria e fui ficando.


BdeL – Novamente pensando na relação entre literatura e universidade, um curso de Escrita Criativa dentro da Academia ainda não é consenso, mesmo com cursos livres do gênero tendo proliferado por aí: como você enxerga essa situação hoje, mestre em Escrita Criativa e doutorando em Teoria da Literatura?


LRA – Essa discussão nunca fez muito sentido para mim. Nunca consegui entender porque a Escrita Criativa incomoda tanto as pessoas. Parece-me uma visão mística do escritor como um sujeito escolhido, ou ainda uma visão elitista, só os bem nascidos e que tiveram uma ótima formação cultural, sendo estimulados a ser e escrever desde cedo, podem escrever livros.


Quanto a estar ou não na academia, acho natural que alguém que queira escrever se interesse pelo menos um pouco por teoria e que, para mim, o contato com o ambiente acadêmico, a discussão de textos, torna mais palpável a literatura e a escrita, por mais que na hora do fluxo criativo, quando a coisa está fluindo, eu não pense em teóricos.


Mais duas considerações. Primeiro, os cursos de artes plásticas, cinemas, teatro existem há bastante tempo, inclusive com programas de pós-graduação, e os projetos de conclusão são eventualmente obras de artes, hoje em dia não se discute a validade desses cursos. E, segundo, já foi provado nas experiências em vários países que os cursos de EC na universidade dão bons frutos. Então que faça Escrita Criativa quem acredite ser válido e que fique longe quem não ache válido.


BdeL – Falar em cursos de Escrita Criativa, de qualquer forma, nos parece ser fruto de um novo momento na literatura brasileira. Estamos, enquanto mercado editorial, amadurecendo?


LRA – Não sei se tenho capacidade para fazer essa análise mercadológica, acho que estamos, sim, amadurecendo, aos poucos. Vejo como exemplo disso as editoras pequenas que conseguem sobreviver publicando apenas autores nos quais acreditam. Mas prefiro deixar essa análise para especialistas. Agora, o curso de Escrita Criativa não me parece se encaixar nesse suposto amadurecimento. Ninguém vem ao curso de EC porque há um mercado para escritores, as editoras não estão batendo às portas do curso para publicar os autores que daqui saem. Os escritores procuram uma pós-graduação em EC porque enxergam nisso uma chance de melhorar o seu texto, de percorrer mais rápido o caminho até domínio técnico do ofício de escrever.


 


Entrevista por:


Davi Boaventura


Escritor, jornalista e judoca, odeia parágrafos e odeia pontos finais. Publicou em revistas do Brasil e sites de Portugal e, em 2012, lançou a novela Talvez Não Tenha Criança no Céu. Escreve agora seu segundo livro, que ele, por enquanto, esconde até de seu amigo imaginário.

Publicado por: Valdeck Almeida de Jesus em 09.09.2013 às 09h38
Tags: davi boaventura, luís roberto amabile, escrita criativa
Canais: Literatura

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