Autor(es)
Amanay Parangaba (CE)
Viviam fugindo, desde o bisavô, então, tinha decidido: desta vez, iam ficar. Não tinham pra onde ir e não queria contar pro seu filho a mesma história que ouviu de seu pai quando, menino de 7 anos, este lhe contava um conselho vindo de seu avô. “Quando eles chegarem, saiam, vão simbora e levem todos...” Aquela história, o pai contava à todos quando sentavam pra olhar a lua cheia ao redor da fogueira, era do tempo em que os seus antepassados viviam na ribeira daquele grande rio das onças, que passa boa parte do ano seco, mas nem por isso afasta os que nele tudo buscam, gente ou bicho. O pai dizia que havia sido grande a luta por aquele pedaço de chão. Muito sangue, muita morte, muito medo. Depois que migraram daquela boa terra, nunca mais encontraram outra parecida: isso ele viveu na pele quando, criança, andava que suava e corava pra deixar comida pro pai e irmãos que trabalhavam num roçado longe de casa, na beira de um riacho seco. E as terras em que estavam não podiam ser deixadas pra trás assim, por nada, sem motivo, apenas por causa daquela velha história que seu pai contava, e passava de geração a geração como uma maldição inevitável.
Estava decidido de verdade: fugir, ele não ia. Nem ele nem nenhum dos seus. De novo, não. Ficaria, mesmo que lhes custasse caro. Quando os primeiros trabalhadores vieram, com aquelas roupas e instrumentos, e construíram seus locais de morada, se fizeram de indiferentes, afinal, não era tão perto de suas casas, apesar de ouvirem o barulho das máquinas. Só nas crianças é que despertavam a curiosidade, e elas viviam espreitando aquelas construções e seus moradores, de quem ganhavam alguns presentes de vez em quando, o que contribuía para, muitas vezes, todas os meninos da família, ansiosos por novidades, irem pras proximidades dos novos vizinhos.
Depois de levantado o arraial, os adultos é que ficavam pelos cantos escondidos, observando aqueles homens de farda e o movimento de caminhões e materiais chegando, abrindo mata fechada e construindo uma estrada não-sabiam-pra-onde-nem-pra-quê. Pensava no conselho do avô. Não tardou para começarem a cavar aquele buraco no chão, entre duas serrinhas curtas que, como depois souberam, tratava-se de um açude pra armazenar água que, de épocas em épocas, faltava por aquelas bandas. Notaram também outras construções ao redor, inclusive de uns ferros que ficavam pregados no chão, que não sabiam bem pra quê serviam, e de uns galpões grandes, tipo depósitos, para guardar algo que não sabiam o que era.
Continuavam morando meio longe daquele arraial. Até que um dia, no ano de 1921, só depois souberam o porquê – foi ordem do presidente do país deles - todo mundo começou a ir embora, e o arraial se esvaziou, levaram máquinas, instrumentos e o barulho que acompanhava aquele reduto. Quando não viram nem ouviram mais ninguém, tomaram coragem e foram visitar o lugar – o que já queriam fazer há tempos.
Grande foi a surpresa deles quando descobriram que nem todo mundo havia ido embora. Notaram isso porque perceberam portas e frestas de janelas se fechando quando foram adentrando na pequena vila de casas em duas ruas mal alinhadas defronte à pequena ermida inacabada de portas escancaradas, sem santos ou imagens. Com o tempo, acabaram fazendo amizade com os remanescentes do povoado, que, menos de dois anos depois, já prosperava com 4 ruelas secundárias cortando as 2 iniciais, e um mundaréu de meninada, aos quais se juntavam os seus. Bem, não eram ruas tão grandes assim, mas haviam outras casas construídas – algumas de taipa, apesar das antigas se sobressaírem dentre todas, principalmente a do comandante das obras de outrora, ao final da rua da capelinha, quase à frente desta. Aquelas pessoas não eram como os que ouvira falar pela boca de seu pai, mas ficava sempre cuidadoso e receoso, lembrando de suas advertências: “No começo são sempre bons, amigos, ajudam, mas depois que estão em suas terras estabelecidos, com seus roçados plantados e seus gados pastando, costumam mostrar quem realmente são e querem.” Achava que o pai exagerava, ainda mais depois que sua filha mais velha emprenhara do filho de uns dos antigos funcionários daquela velha obra, que agora plantava numa terra vizinha à sua, entre dois serrotes, onde tinha uma nascente sempre fértil e, entre elas, formava-se uma várzea. O lugar onde outrora se encontrava seu reduto e dos seus, antes longe do arraial, já estava praticamente dentro da vila, tamanho crescimento desta. E seus meninos, já crescidos, eram amigos dos filhos daqueles ex-trabalhadores, agora agricultores, como ele também se tornara. Não tardou e os dois povoados tornaram-se espécies de distritos dentro da cidadezinha que se formando ia.
Só nos últimos tempos é que algo mudou naquele lento tempo: seus novos netinhos, brincando na terra, acharam potinhos de barro pintado, pedrinhas coloridas, cachimbinhos, que serviam como seus brinquedos; e no campo de futebol da cidade, de vez em quando, alguém arrancava a ponta do dedão do pé chutando um pedaço de barro que saltava da terra e cortava a pele e tirava o sangue dos moradores daquele povoado perdido, em meio a lembranças e esquecimentos, como um livro de memórias do sertão. O nome do lugar?! Se Conselho fosse bom...
Amanay Parangaba
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